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domingo, 2 de dezembro de 2018

OS CACHINHOS DE GIGI




     GIGI era uma menina de cabelos encaracolados. A menina tinha muito orgulho dos seus cachinhos e os balançava, sempre que saía à rua, para ir à escola. 
Ela sonhava em ter um cachorro, em ser veterinária. Quem sabe antes pudesse ser bailarina. Ah, ela também sonhava em ter um gato. Podia ser um gatinho de rua, igual ao que sua prima achara numa noite de chuva. 
Antes que ela e a prima terminassem a conversa sobre o resgate do gato, o pobre felino acabou indo para num gatil, lá do outro lado da cidade. Seus tios, em algumas situações, pensou, eram mesmo muito decididos. Às vezes ela sonhava em estudar as flores e ter um grande jardim. Aprender o segredo das plantas, cavar a terra... Tudo isso ela sonhava olhando o céu cheio de estrelas, lá da janela do apartamento. Por falar em estrelas, Gigi também começou a sonhar em ser Astronauta. Viajar num foguete pelo infinito por muitos e muitos anos

- Ah..., mas pensando bem e se eu voltar e todos os meus amigos estiverem velhinhos? Talvez não seja uma boa ideia.

          Aí aconteceu. Certa manhã, a mãe a chamou na cozinha. Detalhe: pelo mesmo nome que ela usava na escola e entregou-lhe uma taça enorme de sorvete de baunilha. Ela pensou que a coisa era mesmo muito séria. A mãe comunicou-lhe que por uns tempos ela iria se mudar daquele apartamento, ia morar em outro lugar. Ela iria morar numa casa bem diferente, mas era por muito pouco tempo. Afinal, prometeu, tudo vai passar bem rápido.

         - Geovanna, não se preocupe, disse a mãe. Nós vamos te visitar todos os dias e eu vou dormir com você, no mesmo quarto. 

Bem, a menina pensou, pensou e concluiu que aquilo estava mesmo muito estranho. Afinal como se mudar para longe da escola, para longe da prima e de todos os seus brinquedos? Mas, por mais que lhe explicassem não conseguia entender nada. As pessoas a sua volta escolhiam tanto as palavras, que... Malas prontas, lá foi ela morar em outra casa.

          É bem verdade que ela não teria mais as estrelas da janela do quarto, a cama de lençóis coloridos e muito menos a prateleira de bonecas. Seus vestidos ficaram resumidos a algumas roupas de dormir e dois pares de chinelos. Sua professora apareceu para se despedir e dizer que ela nem precisava se preocupar com os deveres de casa, que poderia fazê-los quando voltasse. Uma professora liberar uma aluna dos deveres, até de matemática... Isto estava muito esquisito mesmo.  Gigi arrumou os livros no fundo do armário e guardou seus brinquedos. Antes, pegou a boneca de vestido de veludo e barriga de pano, afinal iria precisar de alguém para conversar. Olhou tudo em volta e partiu.

          Geovanna, todos agora só a chamavam assim, mudo-se para uma casa muito grande. Tão grande que as outras pessoas entravam e saíam sem perguntar nada. Finalmente entrou na nova casa. Havia uma cama alta, e um tubo transparente que pingava todo o tempo. No começo ela contava os pingos que choviam do tubo e terminavam no seu braço, ora direito, ora esquerdo. Ela tentava fazer com que aquele próximo pingo ficasse preso lá em cima e não caísse. Mas, decididamente eles eram muito desobedientes. Ela tentava acalmar Alice, a boneca de barriga de pano, que encostada à parede observava tudo com atenção.

          - Não se preocupe Alice, isto nem dói nada, e esses pingos rebeldes estão quase me obedecendo. Daqui a pouco nós vamos assistir desenho na televisão. Eu sei que você não gosta de ficar presa aqui e que tem saudades de passear na praça. Eu também.

           A menina lembrou-se de sua caixa de lápis de cor e teve uma vontade imensa de colorir tudo. A roupa das moças que cuidavam dela, colorir a parede do quarto e até os corredores que estavam tão desanimados que pareciam mais doentes que os moradores da casa. Poderia desenhar em algumas paredes flores de maçã, como vira numa revista de moda na casa da prima. Eram maravilhosamente lindas as flores caindo dos galhos. Enquanto olhava com atenção as paredes do quarto , percebeu que as outras paredes estavam longe da cama e que ela tinha dificuldade de caminhar pelo quarto com aquele tubo transparente que pingava sem parar.         No fim das contas pensou que dela mesmo só a cama encostada na parede de ladrilhos brancos, que sempre tinha uma mancha do tamanho da palma da mão. Dali, ela avistava uma cidade inteira. E foi a mancha na parede que chamou sua atenção. A cidade se estendia bem desenhada. Interessante que nunca tivesse notado isso.  Tinha o sol nascendo lá longe, a casa da família e ainda a escola no final da trilha. Ninguém via a cidade na mancha do ladrilho, porque ela, apenas ela, virava-se para a parede, já que desistira de educar os pingos e não tinha muita coisa para fazer.

          Um sujeito magricela de guarda-chuva e casaco quadriculado saiu da mancha da parede e sentou-se à beira da cama. Ele descascava uma banana e perguntou aonde poderia jogar a casca.

          - Ali na lixeira perto do armário, disse a menina.

          _ Não quer uma mordidinha? Perguntou o sujeito do guarda-chuva.

          _ Estou sem fome.

          _ Mas você adora bananas, disse o engraçado sujeito.

          - Como você sabe disso? Indagou a menina.

          - Eu sei todos os seus desejos. Poderia dizer que todos os seus quereres. Lembra aquele vestido lilás, de princesa, com a pequena coroa de pedrinhas brilhantes? Está aqui numa caixa, debaixo da cama, e você nem viu.

          - É? ... É porque estou cansada. Hoje estou muito cansada.

          - Anime-se, lá fora está um sol lindo, e tem até estrelas.

          _ Estrelas? Está de dia ou de noite?

          _ As estrelas estão sempre lá, não importa a hora. Importa se você quer vê-las. Tem hora que a gente quer tanto o sol que não consegue ver as estrelas.

          _ Hum... Murmurou desconfiada a menina, e virou-se para a mancha da parede.

          - É, tem muita estrelinha no céu daquele lado, disse. Deste outro lado, está um sol muito grande. Olha só! Apontou com o dedo. Não vou poder ficar aqui olhando, continuou a menina, virão me buscar para cortar os cabelos.

          -Você tem lindos cachinhos escuros e alguns quase cor de mel. Ora... Isso é muito interessante.

          - Mas eles não vão poder ficar comigo, vão cortá-los todinhos. Raspar tudo.

          O sujeito largou o guarda-chuva, limpou as mãos no guardanapo e sentou-se na cama ao lado dela.      

            - Pois eu vim aqui, especialmente, conversar sobre os seus cachinhos. Recebi uma carta deles.

          - Como assim? Cachinhos escrevem cartas?

          _ Só em situações de emergência.

          _ E o que eles falaram?

          _ Bem, o recado que me deram é muito simples, mas preste bem atenção. Eles não vão embora de vez. Na verdade, precisam fazer uma viagem bem longa, para aprender algumas coisas como cuidar de si mesmo, e crescer bonito. A única maneira de partirem é assim: sendo cortados pela raiz. Igual quando a gente derruba uma árvore. Eu sei que nem sempre as árvores crescem. Contudo, os seus cachinhos voltarão junto com a primavera, e como as flores irão crescer de novo.

      _ E quando é a primavera? Na escola a professora falou que já acabou.

          _ Isso é lá na sua escola. Na nossa cidade, a primavera está bem perto de voltar, muito mais perto do que você imagina. Assim que os cachinhos também ficarem fortes, não sentirem mais cansaço, eles voltarão. Você vai olhar no espelho e vê-los voltando todos de uma vez. Mas eles pediram para você não chorar muito de saudades deles. Vale chorar um pouquinho e vai ser igual à chuva. A água dos olhos vai cair no chão e isso vai fortalecer a raiz para tudo que precisar crescer, cresça o mais rápido possível.

          _ E como é que eu vou ser bonita agora?

            _ Ora, você vai continuar bonita e muito mais. Pretendo te ensinar a fazer todos os laços com os lenços coloridos. Vão chegar cabelos de bonecas de todas as cores também. Já pensou: um dia uma cabeleira verde, outro dia azul como o céu e até todinha amarela.

          _ Isso vai ficar um pouco esquisito.

          _ Nada, vai ser é divertido. E não esqueça as tiaras de princesa.

           _ Hum... Ninguém vai perceber que meus cachinhos foram embora né?

          - Viajaram, por um tempo. Bem, vão perceber sim. Mas aqui nesta casa tem muitas meninas com cabelos coloridos e lenços no cabelo. Um festival de moda. Cada pessoa cria a sua. Os cachinhos delas também viajaram, mas vale apostar quem inventa mais coisas para aguentar a saudade. Quer tentar?

          Ela afirmou com a cabeça e segurou a espiral do cabelo entre os dedos.

          _ Tá bom! Sorriu.

      O rapaz magricela pegou de volta o guarda-chuva e pulou para a mancha na parede.

          A moça de vestido branco trouxe uma cadeira de rodas e colocou ao lado da cama.

          - Eu sei andar, me deixa ir sozinha.

            -Nada menina, vai ser mais rápido e tão divertido como andar de bicicleta, disse a moça de vestido branco.

          Geovanna sentou-se na cadeira e, antes de sair, olhou a mancha na parede. O sol estava lá no final da trilha. No céu sobre a casa da família, um montão de estrelas. As árvores em lugar de folhas tinham cachinhos de todas as cores. Se não fossem os cachinhos diria que aquele desenho era muito igual a outro que ela tinha feito na escola, na aula de artes. Seja forte, ouviu dizer lá dentro dela, e só chore um pouquinho para molhar o chão, como faz a chuva. Porque a primavera está muito perto, e todos os cachinhos voltarão mais fortes e maiores. Uns tão grandes que não vão querer mais ser cachinhos, mas lindas mechas de cabelos, com a cor que você quiser. A menina tocou cada um dos seus cachinhos. Enquanto os dedos deslizavam no labirinto dos caracóis ela dizia um até breve a cada um deles. Ela sentiu que eles eram tão iguais a ela na hora da despedida. Eles tinham saudade e medo e ela também. Então, pensou : tenho de ser mais forte que eles, porque aqui tem uns cachinhos pequeninos que acham que nunca vão voltar, mas nós vamos nos ver em breve, isso tudo é uma aventura passageira.   Lá do outro lado da sala ela podia ver, pela porta meio aberta, umas meninas que brincavam de penteados e laços no cabelo. Elas penteavam o cabelo colorido sobre a mesa, trançavam, prendiam, cortavam, sorriam. Elas sorriam mesmo sem um só fio de cabelo de verdade na cabeça. A partir daqui , pensou, vou ser a princesa dos cabelos coloridos. Meu reino vai ser o mais bonito de todos. Não, também não precisa ser o melhor, porque estou aprendendo, mas meus súditos já sabem fazer imensos laços e tranças e vão me deixar linda.
     Ai, aconteceu. Vieram os primeiros pingos de chuva dos olhos de Gigi. Ela os segurou, segurou muito, mas eles molharam tudo. Ela deixou, porque era necessário regar como faz a chuva. Lembrou-se do sujeito magricela , apertou o cachinho perto da orelha e sentiu o medo separando-se dela. Olhou pela janela e lá fora tinha um muro de pedra. Um muro com os desenhos de todos os meninos da sua classe, com nuvens, rios, sóis e flores. Uns números coloridos subiam e desciam o muro, com retas e curvas de todos os tamanhos. Eles tinham feito a mensagem, todos os seus amigos estavam ali, ela conhecia todos os desenhos. Havia frases e palavras curtas também: Sorria, Coragem, Amor, Saudade, Volte logo, Nós te amamos.

          Quando a tesoura cortou seu primeiro fio, a menina fechou os olhos e lembrou-se da árvore na parede do quarto. Era um sol lá longe se apagando para anoitecer e surgirem as estrelas. Depois da noite, amanhece um dia lindo que se tiver chuva é para as plantas ficarem fortes, nascerem as flores, colorirem o jardim e pintarem de luz e cor todos os dias de nossas vidas.

L.A

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A LINHA E O CARRETEL






Era uma linha branquinha como algodão. Morava numa caixa de costura tão antiga que a tampa não mais fechava e ela via o mundo da fresta da caixa. Moravam esquecidos ali, ela e o Carretel. Um sujeito enrolado e gordo e juntos eram uma família: com nome e sobrenome - O Carretel de Linha Branca. 


Esse laço com nó dava à Lili, a linha, conhecer o mundo de longe. Mundo que se movimentava todos os dias a partir das palavrinhas mágicas:

- AO TRABALHO  !

E vinham as bailarinas. Linhas coloridas que bailavam sobre a orientação da Máquina de Costura. Lili também sonhava um dia ter uma fada madrinha: uma agulha.


As linhas coloridas faziam laços, flores e até asas de borboletas.  Numa alegria única, iam dançando, dançando e espalhando cores. Cores lindas que se misturavam e ficavam mais encantadoras ainda.

Lili olhava tudo e sonhava, mas o Carretel continuava lá: enrolado e quieto.

Um dia, a linha branquinha percebeu que havia algo errado no quarto de costura. As agulhas reunidas na mesa ao lado pareciam preocupadas:


-Às vezes, elas dançam tanto,  disse a agulha, que parecem brigar. E isto não está bom, acho que estão cansadas, mas temos tantas encomendas...



Ora, disse a Tesoura. Quando percebo que algo não está bem corto a ponta de alguma delas para dar um descanso.



Lili ficou desolada. Ela nada podia oferecer para as bailarinas das cores. Afinal, pensava, o que pode fazer pelo mundo uma simples linha branca. Esticou-se, esticou-se muito até fazer mexer o carretel. Ele, sonolento e sem esperança confessou que há muito desistira de tudo e conformara-se em dormir o dia inteiro.



- Pois eu acredito que haja alguma coisa que possamos fazer. Proponho abrirmos de vez a tampa da caixa. 



Numa última tentativa de espantar o sono, o Carretel esforçou-se também para abrir a caixa. Empurraram, empurraram até ouvir o barulho da tampa esparramando-se no chão. 



A Máquina de Costura olhou assustada e viu lá dentro da caixa: a Linha e o Carretel e gritou bem alto:


- AO TRABALHO !

 E de repente lá estavam eles, indo direto para o buraco da agulha. E o Carretel pensava: afinal o que posso oferecer ao mundo das cores Sou tão diferente deles, sou tão enrolado. 


A Máquina de Costura era como um maestro controlando a música. Quando a música começava , as bailarinas das cores esticavam as  pernas, os braços,  a cabeça e dançavam. Lili, ali no meio delas, não sabia ao certo para aonde ir. Mas, as agulhas eram mestras no assunto e levavam e traziam a linha branca sempre que as outras exageravam no passo. E elas dançavam e riam, sem nenhuma pressa, controladas pela suavidade da nova companheira. E Lili aprendeu a bordar flores, nuvens, sóis, cidades árvores e asas de Beija-Flor.

E o Carretel ?

Saía rodopiando, rodopiando de felicidade.


Luísa Ataíde




segunda-feira, 3 de abril de 2017

UM GATO JARDINEIRO

  

        Era uma vez um gato que morava num jardim. Um jardim no meio da cidade. Em volta do muro de pedra passavam os carros, os ônibus e as pessoas sempre correndo para chegar ao trabalho ou em casa.  Salomão, o gato, deitava na parte mais alta do muro e preguiçosamente olhava o dia. Fechava os olhos e abria lentamente, era sua maneira de beijar os que passavam. As pessoas não estavam muito interessadas em felinos meditantes e iam em frente. Ele esticava as patinhas da frente com muita força  e saltava para a parte baixa do muro em direção  ás folhagens . 
          Era uma segunda- feira como todas as que começavam a semana, mas a intensa reunião em volta do lago chamou sua atenção. A borboleta mais colorida do jardim estava pousada sobre o tronco da árvore e parecia preocupada. Salomão até pensou em começar um daqueles piques para pegá-la, mas desistiu da brincadeira, ela parecia muito séria.
          As lagartas e gafanhotos aumentavam o círculo em volta da árvore e ele foi lá saber o que se passava:
          - Bem, disse o Louva Deus, eu acho que temos que agir rápido, as máquinas chegam em duas semanas.
          Ali estava a novidade do dia : a destruição do Jardim. O Beija-Flor comunicou que o projeto poderia ser adiado se a chave do trator fosse confiscada, por ele, é claro.
          Salomão ondulou o rabo, enquanto ia de um lado ao outro.
          - Aqui é nossa casa, e até então ninguém se importou com ela. Temos de pensar em algo muito rápido.
          - Quem você pensa que é ?  perguntou o jabuti. O Rei Leão ? Com vinte horas de sono por dia, não vai conseguir fazer muita coisa.
          - Não temos um rei por aqui, Sr. Jabota, mas podemos pensar juntos. Tem alguma sugestão ?
          - Bem, sem nenhuma ofensa, eu acho que temos que arrumar a casa primeiro. Isto aqui está muito abandonado, nem o sol consegue entrar.
           O gato olhou em volta e viu dezenas de companheiros assustados. Os macacos nos galhos, enroscados pelos rabos,  pareciam estar aflitos.
          - Se pensarmos que em duas semanas podemos mudar tudo isso e chamar a atenção de alguém que possa nos ajudar... acho que poderemos salvar o jardim, disse o gato.
          Limpar a orla do laguinho era bem razoável. As poucas pessoas que cruzavam o jardim arremessavam latas de refrigerantes e guardanapos de papel. Aquilo era pior que a terceira guerra no mundo. Um tiro ao alvo para acertar as cabeças.
          - Sem falar que não há calçadas aqui dentro e eles pisam em qualquer lugar com suas botas gigantes, disseram as minhocas. Podemos ser trucidadas a qualquer instante, morremos de medo.  Com o que foram aplaudidas pelas formigas e besouros.
          O gato deixou a preguiça de lado e explicou para todos as medidas apresentadas e havia muitos a favor e outros contra. Umas foram imediatamente rejeitadas, como a das aranhas de construir um muro gigante de teias que isolasse o jardim. Duas semanas era um tempo, muito, muito pequeno. Mas era o que tinham e começaram a agir. O macaco desenhou diversos cartazes e espalhou pela cidade.
          SALVEM O JARDIM MUNICIPAL, dizia.
          O que move o mundo é a urgência e quanto menos tempo temos para resolver um problema, mais rápido vem a solução.  Foi assim com os moradores do Jardim.
          Eles limparam, podaram, cortaram, arrastaram, varreram, pintaram... e tantos outros verbos possíveis para mudar alguma coisa.
          Mas essa é a história de um gato que não sabia, mas era um gato jardineiro. Ele saltou pra dentro do muro da biblioteca pública e abriu todos os livros sobre plantas e  jardins. De posse dos conhecimentos básicos de jardinagem, passou para eles tudo que aprendera. A maioria já tinha os conhecimentos  de adubagem como as Senhoras Minhocas, e de regar e espalhar sementes como os passarinhos. Mas o que faz um milhão é a união das unidades, e todos iam e viam concentrados em limpar e reerguer o jardim.
          Dormiam muito pouco, até o gato, que coordenava tudo, separando as mudas das plantas. Mudas que já moravam no jardim há muito tempo, mas estavam espremidas e sufocadas sob as folhagens, sem sol e pouca chuva.
          Chegou o grande dia. Lá estavam os tratores em frente à entrada do portão principal. Mas agora, era um jardim espetacular que eles iam derrubar. Um jardim pequeno, mas maravilhosamente melhorado. Havia plantas com frutos e flores sob o sol, um lago limpo brilhava suas águas e os peixinhos nadavam ao lado dos patos. As pessoas podiam passar pelas calçadas em linha reta que atravessam o jardim e as minhocas e formigas estavam salvas. O gato espalhara meticulosamente pelos quatro cantos flores encantadoras. Os frutos das árvores podiam ser colhidos pois os galhos pontiagudos tinham sido podados . Salomão, o gato estava lá á frente da população do jardim, como um rei felino defendendo a floresta.  Era um bom governante, tinha sido eleito.
          A notícia já corria os quatro cantos, no jornal, na televisão, na internet.
          “SALVEM O JARDIM”, nós já o salvamos , diziam os bichos.

          As máquinas tiveram que recuar suas bocas enormes, pois as pessoas se espremiam em volta do Jardim Municipal. Ainda não era tudo, mas a cidade estava do lado deles e isso era muito bom.

          O tempo passou e o Jardim foi tombado e virou patrimônio da cidade, assim quando você tem um brinquedo e tem de cuidar dele para todo o sempre, porque ele é muito especial.
          Salomão continuou à frente de separar mudas e discutir medidas que ajudassem a manter o equilíbrio da flora e da fauna. Tudo o que fosse importante para todos era levado em conta.

         Era uma cidade, misturada no meio de outras, mas com um jardim no centro  com flores e um lago limpo. Os pássaros e minhocas viviam em harmonia, os macacos corriam de galho em galho e vigiavam tudo, atentos ao bem estar do meio ambiente. Um gato jardineiro dormia debaixo da paineira o tempo suficiente para descansar.  Jardineiros podam ervas daninhas e fazem florescer vidas. Ele trabalhava para o bem de todos.

Luísa Ataíde

sábado, 14 de janeiro de 2017

FALTA UM CABELO AQUI.








O menino olhou pra fora da janela e disse:
- Não vou à escola.
No sábado o menino olhou pra rua e disse:
 - Não vou ao cinema.
O menino olhou o  dia e disse:
-Não vou à escola, não vou ao cinema, não vou sair. Não vou, não vou, não vou.
- O que foi perguntaram ao menino ?
- Falta um cabelo aqui. Disse apontando pra cabeça. Estou ficando careca. Eu não sou velho pra ser careca.

Ninguém via nada.Olhavam de cima, olhavam de lado, tudo igual.
 - Não vou, não vou, não vou, dizia o menino igual carro emperrado.
 
Passaram-se os dias, passaram-se os meses e o menino na frente do espelho, sempre lá.
- Falta um cabelo aqui. Falta um aqui  também, chorava.

Veio a mãe, o pai, o barbeiro, massagista, psiquiatra, ritalina, espirulina, , fluoxetina ... e nada.O menino continuava triste. Remédio de benzedeira, de cozinheira, de farmácia.
Passa gengibre, cravo da índia,óleo de ríseo, óleo de côco, esfrega , esfrega , mais alecrim ...  um pedacinho de canela, um pouco de cravo. O menino já estava virando doce.

Nasceu o primeiro fio, o segundo fio, e muitos outros. O menino olhou o espelho, olhou,  olhou e disse:
 Não vou sair de casa.
- O que foi perguntaram ao menino?

- Nasceu uma espinha aqui. Falou apontando pro nariz.


L.A

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

RESMUNGA MUNGA




Era uma vez uma gatinha esplendorosa. Munga tinha os  olhos azuis  que se fechavam bem devagarinho. A cauda preta balançava de alegria de um lado pro outro. O pelo era marrom macio, e as patinhas pareciam ter pisado a neve: vestidas sempre com meias brancas. Dizer que aquela gata era bonita eu diria não ser muito justo, ela era mesmo esplendorosa.



        Mas ela andava triste. Se davam Bom dia ela dizia:

- Naummmm

Tudo bem?

- Naummmmm.

Os dias eram um doído não. Ou talvez um oiiimmm. Aquilo era toda hora, todo minuto, todo segundo, sempre. A gatinha resmungava  sem parar. 


Não comia, não brincava, não sorria. Pulava o muro para a casa vizinha, queria fugir do nauuummmmm. Voltava no final da tarde e tudo continuava doído e triste como um não ou:
- Oiiimmm, ummmm, naoooummm, aiiiiii, aiiiii.

Por que resmunga Munga?
- aimmmmmm.


Alguém pegou ela no colo e ela chorou um miado mais agudo ainda. Alguém encostou na patinha e o maior nãummmm do mundo pulou lá de dentro. Alguém segurou a patinha de Munga e viu: um sinalzinho preto pra fora, querendo sair mas não podia.Era o espinho da roseira que morava ali, a quanto tempo ninguém sabia.

Alguém puxou o espinho com força, com tanta força que quase arrancou  o  pé de roseira inteiro do espinho. Munga amanheceu feliz.


Bom dia Munga
- Miauuu!
e saiu balançando seu rabinho esplendoroso.



Às vezes o que não nos deixa sorrir é só um espinho no pé.
       

L.A

sábado, 20 de agosto de 2016

AZUL E VERMELHO



Era Uma vez um Vale.  Um lugar tão maravilhosamente  lindo, que podíamos pensar que era impossível não ser feliz ali.  As flores eram de todas as cores, os pássaros cantavam. O céu era claro e limpo. O sol aparecia para dar brilho ao lugar,  e o vento suave brincava entre as árvores. No meio do vale havia o rio que tornava o lugar mais fresco e cheio de vida. Os peixes corriam ligeiros na água limpa, iam e viam entre as pedras em perfeita harmonia. Do lado direito do rio,  viviam as pessoas que  amavam em demasia a cor do céu.  Cultivavam as mais variadas flores azuis:  Agastaches, fúcias, erinus, e centenas de outras. Aonde houvesse uma flor azul, eles buscavam a semente e espalhavam no jardim. Vestiam-se dos mais variados tons de anil, e cobriam as ruas entre as casas,  de pedras água marinha e topázios azuis de todos os tipos. Eles  consideravam-se calmos e tranquilos,  e respiravam essa  harmonia índigo.

Mas lá,  do outro lado do rio moravam outras pessoas. Elas amavam em demasia o vermelho. Eram corados e alegres, determinadas em defender o vermelho das flores, dos alimentos, as pedras de rubi das calçadas e vestiam-se dos mais variados rubros tons deste mundo. Afinal, pensavam : como alguém pode não amar um tomate vermelhinho e suco de morango, ah, não existe nada melhor. A Bandeira na entrada do lugar era um mastro que flamulava um pano cor de sangue e isto, segundo eles, espalhava coragem e bom humor. Bem, eles não olhavam com nenhuma boa vontade alguém que não pensasse assim. Alguém que não amasse  suco de beterraba, e a parte mais doce da melancia. Então , às vezes,  o povo vermelho se enfurecia com o povo azul. Para eles, aquele povo era triste e desanimado.  O povo azul   esquecia -se que era um povo zen e equilibrado e lá do outro lado da ponte gritavam:
   
- Seus comunistas !

Aos que os vermelhinhos respondiam:

- Seus moribundos !

E começava a guerra.

Ninguém contudo ultrapassava a ponte, afinal pisar num solo em que as pessoas não amavam as coisas como você era a última coisa a ser pensada. As ameaças e planos de guerra eram feitos e ficavam cada qual com seu exército,  parados na entrada da ponte, com as lanças apontadas.

Houve um dia que os ânimos ficaram tão exaltados entre eles, que preparados para dar início a batalha que estenderia, finalmente,  a bandeira azul ou vermelha no vale, não perceberam que a natureza enfurecera-se com tanta discórdia e desabara sobre eles. A tempestade de raios e trovões derrubou árvores, casas,  espalhou o que podia pelo caminho. Choveu tanto que inundou a ponte e ninguém sabia mais aonde começava ou terminava o país azul ou vermelho. Determinados a reerguer as cidades eles misturavam-se entre muros e cercas. E de repente  lá vinha  correndo pelo que parecia ainda ser a ponte:  o homenzinho. Era um homenzinho franzino e ligeiro e corria de um lado para o outro gritando:

- É  ouro, é ouro !


-OURO ? disseram todos 


-É ouro, insistia o homenzinho. Aqui     nesta ponte tem ouro. Um pote de ouro !


-Um pote de ouro gritaram  todos .

E procuravam,  procuravam correndo de um lado para o outro. Acabavam entrando ora no país azul, ora no país vermelho. Os índigos, acharam engraçados o suco de morango e salada de beterraba e resolveram provar a parte mais doce da melancia.
Os alegres vermelhos, acharam encantadoramente lindas as ruas cobertas de pedras topázio azuis e as flores esplendorosas do jardim.

-Ora, ora, ora, disse  maravilhado o                 

homenzinho, aqui está o pote de ouro !

No centro da ponte ali estava um pote imenso, e como ninguém nunca tinha ido até o meio da ponte, conheciam pela primeira vez o pote. Olharam no fundo e lá estava :

Ouro de todas as cores. Cores, verdes, azuis, vermelhas, lilás, rosa, marrom, amarelo e todos os tons possíveis. Um pote de cores. Eles enfiavam as mãos nas cores e riam de felicidade. Surpresos , percebiam algo além de vermelho e azul. Viam, juntos, as  flores brancas que espalhavam perfumes por todo o vale, florzinhas amarelas, rosas, de todas as cores possíveis e eles  admiravam-se com tudo. Como existia algo tão bonito além do azul e vermelho, como isso era possível ?

E o homenzinho espalhou o pote de ouro por todo

o vale.
       
  
As vezes,   é preciso ir lá fora,  conhecer  a cor do outro, ensinar a sua, misturar as cores e construir juntos o pote do arco-íris.


Luisa Ataíde

sexta-feira, 1 de julho de 2016

MISS ALOA GREEN - A LAGARTA







Ser uma lagarta, pode parecer fácil. Mas, quando tudo em sua volta é muito grande - viver é um jogo perigoso.

Eu vivo aqui neste jardim. Ele é minha casa. Eu vejo as estrelas no céu escuro, e sinto o vento correndo entre as árvores.

Eu acordo cedo. Às quatro horas, antes do nascer do sol. Eu vivo debaixo da grande árvore, perto do muro branco. Eu acho que há vida depois do muro branco, mas as minhocas riem de mim, elas não acreditam que isso possa ser verdade.

Contudo, ele não. Ele não ri.  Ele é uma lagarta como eu. Ele é lindo. Todos os dias ele passa debaixo da minha janela. 

- Bom dia, Miss Aloa!
- Bom dia!
- É muto bom te ver.
- É muito bom te ver também Senhor Gilberto!

Ele e seu guarda-chuva desaparecem na tarde.

No inverno, não neva, mas faz muito frio. Eu uso botas. Quantas ?

- Dezesseis.

O verão é minha estação favorita. Há frutos, flores e os pássaros cantam. Assim são os dias na América do Sul.  Mas, nada é perfeito neste mundo. 

Aos sábados o jardineiro molha as plantas. Chove muito. Na verdade,  ele faz um oceano em nossas vidas.Então, eu vou para escola de barco. 

Isto não é o pior, e quando ele usa o cortador de grama! É mesmo o  fim do mundo. 

Meu grande medo é Genessis o anão.
Ele fica parado no centro do jardim. Ele não fala, ele não ri. Ele é muito sério.
Eu acho que ele dorme lá, em pé.

O jardineiro e sua máquina, o grande dilúvio, o Anão do jardim, isto tudo é o lado escuro deste paraíso.

Contudo, a grande mãe Natureza, cuida de nós.
Eu aprendo todos os dias, eu estou aprendendo.
 Eu aprendo sempre. 


LUISA ATAIDE