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domingo, 2 de dezembro de 2018

OS CACHINHOS DE GIGI




     GIGI era uma menina de cabelos encaracolados. A menina tinha muito orgulho dos seus cachinhos e os balançava, sempre que saía à rua, para ir à escola. 
Ela sonhava em ter um cachorro, em ser veterinária. Quem sabe antes pudesse ser bailarina. Ah, ela também sonhava em ter um gato. Podia ser um gatinho de rua, igual ao que sua prima achara numa noite de chuva. 
Antes que ela e a prima terminassem a conversa sobre o resgate do gato, o pobre felino acabou indo para num gatil, lá do outro lado da cidade. Seus tios, em algumas situações, pensou, eram mesmo muito decididos. Às vezes ela sonhava em estudar as flores e ter um grande jardim. Aprender o segredo das plantas, cavar a terra... Tudo isso ela sonhava olhando o céu cheio de estrelas, lá da janela do apartamento. Por falar em estrelas, Gigi também começou a sonhar em ser Astronauta. Viajar num foguete pelo infinito por muitos e muitos anos

- Ah..., mas pensando bem e se eu voltar e todos os meus amigos estiverem velhinhos? Talvez não seja uma boa ideia.

          Aí aconteceu. Certa manhã, a mãe a chamou na cozinha. Detalhe: pelo mesmo nome que ela usava na escola e entregou-lhe uma taça enorme de sorvete de baunilha. Ela pensou que a coisa era mesmo muito séria. A mãe comunicou-lhe que por uns tempos ela iria se mudar daquele apartamento, ia morar em outro lugar. Ela iria morar numa casa bem diferente, mas era por muito pouco tempo. Afinal, prometeu, tudo vai passar bem rápido.

         - Geovanna, não se preocupe, disse a mãe. Nós vamos te visitar todos os dias e eu vou dormir com você, no mesmo quarto. 

Bem, a menina pensou, pensou e concluiu que aquilo estava mesmo muito estranho. Afinal como se mudar para longe da escola, para longe da prima e de todos os seus brinquedos? Mas, por mais que lhe explicassem não conseguia entender nada. As pessoas a sua volta escolhiam tanto as palavras, que... Malas prontas, lá foi ela morar em outra casa.

          É bem verdade que ela não teria mais as estrelas da janela do quarto, a cama de lençóis coloridos e muito menos a prateleira de bonecas. Seus vestidos ficaram resumidos a algumas roupas de dormir e dois pares de chinelos. Sua professora apareceu para se despedir e dizer que ela nem precisava se preocupar com os deveres de casa, que poderia fazê-los quando voltasse. Uma professora liberar uma aluna dos deveres, até de matemática... Isto estava muito esquisito mesmo.  Gigi arrumou os livros no fundo do armário e guardou seus brinquedos. Antes, pegou a boneca de vestido de veludo e barriga de pano, afinal iria precisar de alguém para conversar. Olhou tudo em volta e partiu.

          Geovanna, todos agora só a chamavam assim, mudo-se para uma casa muito grande. Tão grande que as outras pessoas entravam e saíam sem perguntar nada. Finalmente entrou na nova casa. Havia uma cama alta, e um tubo transparente que pingava todo o tempo. No começo ela contava os pingos que choviam do tubo e terminavam no seu braço, ora direito, ora esquerdo. Ela tentava fazer com que aquele próximo pingo ficasse preso lá em cima e não caísse. Mas, decididamente eles eram muito desobedientes. Ela tentava acalmar Alice, a boneca de barriga de pano, que encostada à parede observava tudo com atenção.

          - Não se preocupe Alice, isto nem dói nada, e esses pingos rebeldes estão quase me obedecendo. Daqui a pouco nós vamos assistir desenho na televisão. Eu sei que você não gosta de ficar presa aqui e que tem saudades de passear na praça. Eu também.

           A menina lembrou-se de sua caixa de lápis de cor e teve uma vontade imensa de colorir tudo. A roupa das moças que cuidavam dela, colorir a parede do quarto e até os corredores que estavam tão desanimados que pareciam mais doentes que os moradores da casa. Poderia desenhar em algumas paredes flores de maçã, como vira numa revista de moda na casa da prima. Eram maravilhosamente lindas as flores caindo dos galhos. Enquanto olhava com atenção as paredes do quarto , percebeu que as outras paredes estavam longe da cama e que ela tinha dificuldade de caminhar pelo quarto com aquele tubo transparente que pingava sem parar.         No fim das contas pensou que dela mesmo só a cama encostada na parede de ladrilhos brancos, que sempre tinha uma mancha do tamanho da palma da mão. Dali, ela avistava uma cidade inteira. E foi a mancha na parede que chamou sua atenção. A cidade se estendia bem desenhada. Interessante que nunca tivesse notado isso.  Tinha o sol nascendo lá longe, a casa da família e ainda a escola no final da trilha. Ninguém via a cidade na mancha do ladrilho, porque ela, apenas ela, virava-se para a parede, já que desistira de educar os pingos e não tinha muita coisa para fazer.

          Um sujeito magricela de guarda-chuva e casaco quadriculado saiu da mancha da parede e sentou-se à beira da cama. Ele descascava uma banana e perguntou aonde poderia jogar a casca.

          - Ali na lixeira perto do armário, disse a menina.

          _ Não quer uma mordidinha? Perguntou o sujeito do guarda-chuva.

          _ Estou sem fome.

          _ Mas você adora bananas, disse o engraçado sujeito.

          - Como você sabe disso? Indagou a menina.

          - Eu sei todos os seus desejos. Poderia dizer que todos os seus quereres. Lembra aquele vestido lilás, de princesa, com a pequena coroa de pedrinhas brilhantes? Está aqui numa caixa, debaixo da cama, e você nem viu.

          - É? ... É porque estou cansada. Hoje estou muito cansada.

          - Anime-se, lá fora está um sol lindo, e tem até estrelas.

          _ Estrelas? Está de dia ou de noite?

          _ As estrelas estão sempre lá, não importa a hora. Importa se você quer vê-las. Tem hora que a gente quer tanto o sol que não consegue ver as estrelas.

          _ Hum... Murmurou desconfiada a menina, e virou-se para a mancha da parede.

          - É, tem muita estrelinha no céu daquele lado, disse. Deste outro lado, está um sol muito grande. Olha só! Apontou com o dedo. Não vou poder ficar aqui olhando, continuou a menina, virão me buscar para cortar os cabelos.

          -Você tem lindos cachinhos escuros e alguns quase cor de mel. Ora... Isso é muito interessante.

          - Mas eles não vão poder ficar comigo, vão cortá-los todinhos. Raspar tudo.

          O sujeito largou o guarda-chuva, limpou as mãos no guardanapo e sentou-se na cama ao lado dela.      

            - Pois eu vim aqui, especialmente, conversar sobre os seus cachinhos. Recebi uma carta deles.

          - Como assim? Cachinhos escrevem cartas?

          _ Só em situações de emergência.

          _ E o que eles falaram?

          _ Bem, o recado que me deram é muito simples, mas preste bem atenção. Eles não vão embora de vez. Na verdade, precisam fazer uma viagem bem longa, para aprender algumas coisas como cuidar de si mesmo, e crescer bonito. A única maneira de partirem é assim: sendo cortados pela raiz. Igual quando a gente derruba uma árvore. Eu sei que nem sempre as árvores crescem. Contudo, os seus cachinhos voltarão junto com a primavera, e como as flores irão crescer de novo.

      _ E quando é a primavera? Na escola a professora falou que já acabou.

          _ Isso é lá na sua escola. Na nossa cidade, a primavera está bem perto de voltar, muito mais perto do que você imagina. Assim que os cachinhos também ficarem fortes, não sentirem mais cansaço, eles voltarão. Você vai olhar no espelho e vê-los voltando todos de uma vez. Mas eles pediram para você não chorar muito de saudades deles. Vale chorar um pouquinho e vai ser igual à chuva. A água dos olhos vai cair no chão e isso vai fortalecer a raiz para tudo que precisar crescer, cresça o mais rápido possível.

          _ E como é que eu vou ser bonita agora?

            _ Ora, você vai continuar bonita e muito mais. Pretendo te ensinar a fazer todos os laços com os lenços coloridos. Vão chegar cabelos de bonecas de todas as cores também. Já pensou: um dia uma cabeleira verde, outro dia azul como o céu e até todinha amarela.

          _ Isso vai ficar um pouco esquisito.

          _ Nada, vai ser é divertido. E não esqueça as tiaras de princesa.

           _ Hum... Ninguém vai perceber que meus cachinhos foram embora né?

          - Viajaram, por um tempo. Bem, vão perceber sim. Mas aqui nesta casa tem muitas meninas com cabelos coloridos e lenços no cabelo. Um festival de moda. Cada pessoa cria a sua. Os cachinhos delas também viajaram, mas vale apostar quem inventa mais coisas para aguentar a saudade. Quer tentar?

          Ela afirmou com a cabeça e segurou a espiral do cabelo entre os dedos.

          _ Tá bom! Sorriu.

      O rapaz magricela pegou de volta o guarda-chuva e pulou para a mancha na parede.

          A moça de vestido branco trouxe uma cadeira de rodas e colocou ao lado da cama.

          - Eu sei andar, me deixa ir sozinha.

            -Nada menina, vai ser mais rápido e tão divertido como andar de bicicleta, disse a moça de vestido branco.

          Geovanna sentou-se na cadeira e, antes de sair, olhou a mancha na parede. O sol estava lá no final da trilha. No céu sobre a casa da família, um montão de estrelas. As árvores em lugar de folhas tinham cachinhos de todas as cores. Se não fossem os cachinhos diria que aquele desenho era muito igual a outro que ela tinha feito na escola, na aula de artes. Seja forte, ouviu dizer lá dentro dela, e só chore um pouquinho para molhar o chão, como faz a chuva. Porque a primavera está muito perto, e todos os cachinhos voltarão mais fortes e maiores. Uns tão grandes que não vão querer mais ser cachinhos, mas lindas mechas de cabelos, com a cor que você quiser. A menina tocou cada um dos seus cachinhos. Enquanto os dedos deslizavam no labirinto dos caracóis ela dizia um até breve a cada um deles. Ela sentiu que eles eram tão iguais a ela na hora da despedida. Eles tinham saudade e medo e ela também. Então, pensou : tenho de ser mais forte que eles, porque aqui tem uns cachinhos pequeninos que acham que nunca vão voltar, mas nós vamos nos ver em breve, isso tudo é uma aventura passageira.   Lá do outro lado da sala ela podia ver, pela porta meio aberta, umas meninas que brincavam de penteados e laços no cabelo. Elas penteavam o cabelo colorido sobre a mesa, trançavam, prendiam, cortavam, sorriam. Elas sorriam mesmo sem um só fio de cabelo de verdade na cabeça. A partir daqui , pensou, vou ser a princesa dos cabelos coloridos. Meu reino vai ser o mais bonito de todos. Não, também não precisa ser o melhor, porque estou aprendendo, mas meus súditos já sabem fazer imensos laços e tranças e vão me deixar linda.
     Ai, aconteceu. Vieram os primeiros pingos de chuva dos olhos de Gigi. Ela os segurou, segurou muito, mas eles molharam tudo. Ela deixou, porque era necessário regar como faz a chuva. Lembrou-se do sujeito magricela , apertou o cachinho perto da orelha e sentiu o medo separando-se dela. Olhou pela janela e lá fora tinha um muro de pedra. Um muro com os desenhos de todos os meninos da sua classe, com nuvens, rios, sóis e flores. Uns números coloridos subiam e desciam o muro, com retas e curvas de todos os tamanhos. Eles tinham feito a mensagem, todos os seus amigos estavam ali, ela conhecia todos os desenhos. Havia frases e palavras curtas também: Sorria, Coragem, Amor, Saudade, Volte logo, Nós te amamos.

          Quando a tesoura cortou seu primeiro fio, a menina fechou os olhos e lembrou-se da árvore na parede do quarto. Era um sol lá longe se apagando para anoitecer e surgirem as estrelas. Depois da noite, amanhece um dia lindo que se tiver chuva é para as plantas ficarem fortes, nascerem as flores, colorirem o jardim e pintarem de luz e cor todos os dias de nossas vidas.

L.A

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